terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O ESPÍRITO DA SAGRADA FAMÍLIA

Esta reflexão do Pe. Nicolás Schweizer, publicado em Reflexões No. 64, de 01.09.2009 nos leva a refletir sobre a festa de hoje, que comemora a Sagrada Família de Nazaré.

O espírito exemplar que reinava em Nazaré, a Igreja o quer despertar hoje, para que reine em todas nossas famílias. Penso que o espírito da Sagrada Família era ‑ ante tudo ‑ um espírito de amor, um espírito de fé e um espírito de sacrifício.

a) Um espírito de amor. É um amor que mutuamente se aceita, se sustém e se suporta ‑ apesar de todos os defeitos e limitações, porque Deus mesmo tem escolhido e unido seus membros.

1. Devemos reviver em nossa família, em primeiro lugar, o mistério da Sagrada Família: o amor redentor de Cristo.

Em Cristo, o marido é responsável da salvação de sua esposa. Tem que amá-la até salvá-la. A mulher é responsável da salvação de seu marido. Os pais são responsáveis pela salvação de seus filhos: é sua principal missão, da que algum dia se lhes pedirá conta. E os filhos, pouco a pouco, à medida que vão crescendo, vão fazendo-se responsáveis da salvação de seus pais, responsáveis de amá-los até salvá-los.

2. De acordo com a imagem de Maria e José, o amor dos pais entre si e aos filhos deve ser em segundo lugar, um amor desinteressado e respeitoso.

Educar é servir desinteressada e respeitosamente à originalidade e particularidade dos filhos. Significa despertar e fazer desenvolver os dons que Deus há depositado em cada um deles.

Sem dúvida, isto exige muito tempo, muita energia, muita paciência dos pais, porque é sua tarefa mais criativa, mais difícil, mas também a mais fecunda e bela. Os pais devem ver e reconhecer Jesus em seus filhos, tal como na Família de Nazaré. Eu educo e amo em meu filho ao próprio Jesus Cristo: “Quem recebe a uma criança como esta, recebe a mim”.

3. Segundo o exemplo de Jesus, o amor dos filhos aos pais deve ser obediente e respeitoso. Ele mesmo, filho de Deus, permaneceu submisso a seus pais até a idade de trinta anos. Recordemos aquele texto do Evangelho, quando tinha doze anos: “Jesus foi com eles a Nazaré e seguiu sob sua autoridade”.

b) Um espírito de fé. O espírito de amor baseia-se num profundo espírito de fé e confiança.

Na Santa Família de Nazaré, como na nossa, foi necessário ter confiança mútua, demonstrar a fé todos os dias. José teve que ter uma fé cega em Maria; teve que crer n’Ela de uma maneira extraordinária, teve que amá-la muito para chegar a crer tanto n’Ela. E Maria teve que crer em José; teve que confiar em seu amor puro, em seu respeito, em sua estima.

José e Maria tiveram que ter fé em seu Filho. Mesmo que não parecesse mais que uma criança como todas, acreditaram sempre no mistério que vivia n’Ele. Não sempre compreenderam tudo o que Ele fazia tudo o que lhes dizia, mas eles confiavam n’Ele, acolhiam suas palavras e as meditavam.

E Jesus demonstrava a confiança que tinha em seus pais: esteve com eles durante longos trinta anos.

c) Um espírito de sacrifício. Espírito de amor autêntico e de fé profunda levam consigo o espírito de sacrifício. E para a Sagrada Família os sacrifícios e sofrimentos começaram cedo:

·         O nascimento na solidão e miséria. Nunca se encontraram mais pobres, mais fatigados nem mais sozinhos que quando nasceu o Senhor.
·         Depois, a matança dos Inocentes: como primeiro resultado do nascimento do Salvador, as famílias do país em luto, as crianças menores de dois anos assassinadas.
·         E a fuga da Família, em plena noite, a Egito; a estadia lá como fugitivos.
·         E assim ocorreu durante toda sua vida, até o dia escuro do Calvário.

Os sacrifícios são próprios da vida familiar. Todos sabemos e o experimentamos sempre de novo. Por isso é necessário um espírito profundo de sacrifício para cada família que está em caminho rumo ao ideal da Santa Família de Nazaré.

Perguntas para a reflexão

1.      Respeito as decisões de meus filhos?
2.      Como educo no respeito a meus filhos?
3.      Como sobrelevo os sacrifícios da vida familiar?

crédito da foto: photopin.com

sábado, 13 de dezembro de 2014

AJUDAR OS FILHOS A SOFRER

O maior desejo dos pais é que os filhos não sofram; que sejam sempre felizes e se realizem como pessoas. Todavia é impossível afastar todos os sofrimentos dos filhos. O sofrimento é necessário para o amadurecimento do ser humano. Assim, os pais não devem poupar os filhos do sofrimento, mas ensiná-los a sofrer.

Uma das melhores coisas que se pode fazer pelas crianças, desde muito cedo, é educá-las a enfrentarem seus sofrimentos, suas limitações, das pequenas frustrações do dia-a-dia até problemas mais sérios, como dificuldades na escola e questões de saúde.

Quando, por exemplo, a criança precisa tomar uma vacina ou medicação através de injeção, os pais podem utilizar esta oportunidade para explicar a criança que realmente aquele procedimento será doloroso, mas que é para o seu próprio bem, então ela precisa ter coragem e enfrentar este momento para se tornar mais forte. Os pais também explicam que estarão lá, ao lado dela, segurando sua mão, para que ela enfrente este momento de dor com o seu apoio, assim, tudo será mais fácil.

Ao procederem desta forma, não ocultando o sofrimento que está por vir ou muito pior, mentindo que ela não sentirá dor, os pais ajudam a criança a se fortalecer perante as dificuldades que a vida traz. Além disso, podem ser um transparente de Deus para seus filhos, pois quando a pessoa sofre, precisa saber que Deus está ao seu lado, segurando sua mão e a ajudando a passar aquele momento de dificuldade.

Outra atitude muito proveitosa para os filhos é quando os pais permitem que eles resolvam seus próprios problemas. Muitas vezes no afã de poupar os filhos do sofrimento, ou na vontade de resolver tudo para os filhos, os pais (neste caso principalmente a mãe) já tomam a iniciativa de solucionar qualquer conflito ou qualquer dificuldade que os filhos apresentam.

Porém, ao invés de auxiliar os filhos, esta atitude superprotetora acaba por minar a autoestima deles, pois demonstra que os pais não confiam que seus filhos possam resolver seus problemas, precisando de sua interferência constante. Portanto, o melhor a se fazer é orientar o filho, quando solicitado, sobre a maneira de solucionar aquela determinada situação. Ou ainda melhor, questionar o próprio filho de como ele acha que o problema deva ser resolvido. Desta forma, a autoestima é fortalecida e o filho amadurece e se fortalece como pessoa.

No momento em que o sofrimento atinge toda a família, como no caso do falecimento de um ente querido próximo, os pais também podem auxiliar seus filhos a transformarem esta hora de dor em um tempo de crescimento. Este auxílio virá em primeiro lugar no próprio exemplo dos pais de como enfrentam a situação, sem desespero e com tranquilidade, como um fato muito triste, mas que é inevitável, a hora da morte chega para todos.

Além disso, mais uma oportunidade para mencionar a fé no Paraíso, no amor de Deus que nos espera de braços abertos quando formos chamados de volta a sua casa e que também ajudará e consolará toda a família no momento de luto.


É preciso ainda dar espaço para os filhos falarem o que sentem sobre o acontecimento que está causando o sofrimento, sem julgar o sentimento de cada um, mas acolhendo e orientando se for demonstrada alguma revolta ou rancor. Caso a criança seja muito pequena para conseguir expressar com palavras o que sente, pode-se utilizar de desenhos ou brincadeiras utilizando bonecos ou outros brinquedos onde ela possa demonstrar como está sentindo.

CRÉDITO DA FOTO: PHOTOPIN.COM

sábado, 6 de dezembro de 2014

UM NASCIMENTO FORA DO COMUM




Mais uma reflexão do Pe. Nicolás Schweizer, publicada em 15.12.2009, No. 73.

O que celebramos no Natal? Celebramos o nascimento de um menino, mas não de um menino comum, se não de um Menino que é Deus.


Agora, se comparamos este nascimento com outros nascimentos, p.ex. com o de nossos filhos, então notamos algumas coisas estranhas. Este menino nasce em condições surpreendentes, desconcertantes e até chocantes ‑ já que se trata do Filho de Deus.

1. Uma primeira condição estranha. Dá-se a conhecer aos pastores.

Veio a terra. Não preveniu aos grandes. Não avisou aos poderosos. Não fez saber nada aos sacerdotes. Jogou por terra a hierarquia.

Não houve conferência de imprensa para anunciar ao mundo um acontecimento de tal categoria. E, no entanto tinha sumo interesse de que alguém o soubesse. Alguém tinha direito de ser o primeiro em conhecer a notícia. E manda seus mensageiros a uns pastores que acampam perto da cidade guardando seus rebanhos. Os pastores vivem à margem da sociedade e muitas vezes também à margem da religião. São incultos, não conhecem a lei, e por isso estão destinados ao inferno, segundo os fariseus. E precisamente a esses “excomungados” é a quem Cristo envia seus anjos para lhes anunciar sua vinda.

É que Jesus quer deixar as coisas claras desde o começo. Ele vê tudo ao revés. A seus olhos, os grandes são os pequenos. Os últimos são os primeiros. Os deixados de lado pela sociedade, seus clientes privilegiados. A Boa Nova se comunica e chega a pertencer primeiro a aqueles que estão “fora”.

2. Uma segunda circunstância estranha. Não é reconhecido pelos homens.

Pensemos p.ex. nos hospedeiros de Belém. Se houvessem sabido que Deus estava ali, lhe abririam a porta, o acolheriam. Porque eram pessoas religiosas, como nós. Mas acreditaram que se tratava de vagabundos, de refugiados não se sabe de onde, um par de desconhecidos.

E não os quiseram receber. E nós, os receberíamos? Como crer que Deus podia se apresentar a nós dessa forma?


3. Uma terceira circunstância estranha do nascimento. É Deus e nasce na miséria. 



Deus é totalmente distinto de como o havíamos imaginado; Deus é todo o contrário ao poder, a majestade, a autoridade, a riqueza, a força que lhe havíamos atribuído.

Mas Deus é totalmente semelhante aos singelos, aos pobres, aos que se sentem irmãos, aos misericordiosos, aos que amam, aos que tem fome de justiça.

Não é que Cristo não seja um homem como nós, se não que é tão homem, o único verdadeiro homem: verdadeiramente livre, simples, amante, fiel, disponível. A Boa Nova que anuncia o Natal, consiste nisso.

Para assemelhar-nos a Deus, não temos que fazer-nos ricos, fortes, solitários ou majestosos. Nos basta amar um pouco mais, servir um pouco mais, aproximarmos mais aos pobres, lutar um pouco mais por justiça. Podemos nos converter em Cristo seguidamente, em nossa mesma situação, em nosso nível social ou cultural. Sem aguardar visões ou milagres, mas nos tornado os últimos de todos e os servidores de todos.

Deus é pobre: pobre de todas essas coisas que ambicionamos, que buscamos, que pretendemos. E não digamos que Deus se oculta ou está ausente do mundo. Deus está extraordinariamente presente e visível: tão presente e tão visível – ou tão pouco presente e tão pouco visível como o estão, em nossa vida, os pobres.

Se quisermos nos encontrar com o verdadeiro Deus que nesse Natal vem a nós, devemos nos encontrar com os pobres. 

E se então esse amor aos desafortunados nasce em nós, Deus se faz presente realmente em nosso coração. Esse é o Natal que devemos fazer. Esse é o Natal verdadeiro no qual devemos crer. Somos responsáveis de que se faça esse Natal em toda parte.

Perguntas para a reflexão

1.     Como vivo o Natal?

2.  Sou capaz de ver ao Menino Deus entre os pobres de nosso tempo?

crédito da foto: photopin.com


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

SOFRER EM FAMÍLIA

O sofrimento, quando acomete a alguém, normalmente atinge também a todos aqueles que estão ao seu redor, principalmente a sua família. A família toda também pode ser alvo de algum sofrimento e é importante saber lidar com as dificuldades em conjunto.

Este sofrimento em família pode resultar em dois processos distintos: ou ele une a família ou a pode destruir. O grau de maturidade e a fé de cada membro, além da graça divina, é que vai determinar como a família enfrentará a provação.

Quando um sofrimento acomete a família, cada membro pode reagir de um jeito: uns precisam de silêncio, outros necessitam falar sobre o assunto; alguns podem chorar, outros se fechar. O importante é respeitar o tempo de cada um para poder assimilar o acontecimento.

O papel dos pais é fundamental neste processo. Os filhos se espelharão neles para lidar com a situação. Assim, marido e mulher devem se apoiar um no outro para conseguirem a serenidade necessária para enfrentarem qualquer dificuldade.

Na hora da provação, aquele que se sentir mais forte, seja o esposo ou a esposa, deve tomar a frente para conseguir conduzir a família através do sofrimento. Dependendo do tempo em que perdurar a situação, esta liderança pode ser revezada, pois estar à frente do problema suga muita energia e a alternância pode ser necessária para evitar que toda a família sucumba.

O espaço para o diálogo em família deve ser ampliado. É necessário criar oportunidades para que cada um possa falar a respeito de como se sente, como está sendo atingido por aquela situação. É o momento também de chorar junto, de talvez até reclamar junto, colocando em comum todos os sentimentos.

ORAÇÃO

A oração em família também deve ser intensificada. Muitas vezes no momento da dor não é possível rezar da mesma maneira que se fazia antes. A forma de oração não é o mais importante: o que é preciso é colocar-se diante de Deus e expor tudo o que estão passando. Em algumas ocasiões nem se precisa dizer nada: basta ficarem juntos em frente a alguma imagem de Jesus, de Nossa Senhora ou de algum santo de devoção da família e talvez acender uma vela, ou simplesmente olharem para esta imagem por algum tempo.

Chorar também pode ser uma forma de oração. Muitas vezes quando não se consegue expressar em palavras o que se sente e o que se pede, as lágrimas podem substituir a oração verbal.

“As lágrimas podem ser uma eloquente oração, expressando sentimentos, esperanças e medos que não se podem exprimir com palavras. Padre Edward Hays, num seu livro, fala sobre a oração das lágrimas: ‘Ele sentiu-se tocado pela dor da viúva que levava o filho para a sepultura. ‘Não chores’, ele trouxe seu filho de volta para a vida. Seu coração foi tocado profundamente e, sem que a mãe nada pedisse, ele fez um milagre. As lágrimas daquela mulher eram sua oração e essa oração foi ouvida. As lágrimas, sem dúvida nenhuma, são uma oração muito forte, pois têm o poder de mover até mesmo os céus. As lágrimas têm ainda muitas outras funções além de serem a mais poderosa de todas as linguagens. As lágrimas podem expressar o que vai além do poder das palavras.(...) São Paulo bem que poderia estar falando da oração das lágrimas, quando ele diz que quando não sabemos o que dizer, o espírito intercede e ora por nós de uma maneira que não pode ser explicada. ‘Aquele que sonda os corações sabe qual é o desejo do espírito, e que a sua intercessão pelo seu povo santo corresponde à vontade de Deus’ (Rm 8,27)”[1]

Rezar uma novena pedindo a graça da resolução do problema também é um meio muito útil para unir a família e ajudá-la a se entregar nas mãos da Divina Providência, aumentando sua confiança de que Deus não os desamparará. 




[1] “Casamento, uma aliança em quatro estações”, HOLT, Mary Van Balen. Pgs177-178, 3ª edição, Editora Santuário, Aparecida/SP
crédito da foto: photopin.com