quinta-feira, 27 de novembro de 2014

NASCEU UMA MÃE ESPECIAL

Entrevistei Leticia Velasquez, autora de  "A Special Mother is Born" (Nasceu uma Mãe Especial), um livro repleto de histórias maravilhosas sobre pais que bravamente mantiveram a gravidez, apesar do diagnóstico de mutações genéticas ou outros problemas graves de saúde.

Este livro também quer alertar sobre a taxa extremamente alta de aborto (nos EUA) de crianças com necessidades especiais, que chega a 92% nos casos de Síndrome de Down. Você pode adquirir o livro, também em espanhol, pelo site da amazon.com:



Aqui ela conta um pouco sobre seu livro e seu trabalho:

P. Leticia, por favor nos diga algo sobre você, sua família e seu trabalho atual.
Estou casada com Francisco há 23 anos, nós temos três filhas, Gabriela que está no último ano de enfermagem na Franciscan University, Bella, que está no último ano do ensino médico e quer cursar Educação Especial na Franciscan, e Cristina, que tem 12 anos e Síndrome de Down, a qual estou educando em casa. Ela estudou em escola pública toda sua vida, mas eles não estavam mais conseguindo preencher suas necessidades educacionais, então desde o fim do ano passado eu decidi educá-la em casa e está indo muito bem.

P. O que você acha que os leitores descobrirão no "A Special Mother is Born"?
Se eles tiveram um filho com necessidades especiais, descobrirão que sua história tem muito em comum com as relatadas no livro. Se não tem, terão uma grande surpresa: a criança que muitos acham que destruirá seus sonhos se torna aquela bem no centro deles!

P. Como escrever este livro a ajudou com sua própria filha especial?
Eu descobri que estou em uma classe muito privilegiada, a de pais e mães especiais, escolhidos por Deus para uma vocação única dentro de uma vocação. De ser não apenas pais, mas pais de filhos com necessidades especiais é um meio extraordinário de graças e trará a tona o melhor dos pais se eles tiverem um relacionamento com Deus e o suporte de uma boa paróquia. Uma mãe chama seu filho com autismo de seu "elevador para o Céu."

P. Conte-nos como teve a ideia de escrever este livro não apenas sobre sua experiência pessoal, mas com histórias de tantos outros pais especiais.

Quando comecei com meu blog em 2006, eu escrevi uma versão mais curta da minha história para a revista Faith & Family. A resposta dos leitores foi extraordinária, eles publicaram cartas de pais que gostariam de dividir suas histórias inspiradoras por muitos meses depois. Eu descobri que muitos pais católicos possuem histórias maravilhosas de graça e crescimento para compartilhar. Eu pedi ao padre Benedict Groeshel para escrever a apresentação do livro e ele ficou muito empolgado, me dizendo que venderíamos muitas cópias. Sua saúde não permitiu que ele fizesse a apresentação e ele pediu a sua amiga Irmã Mary Agnes Donovan, Superiora das Irmãs da Vida para escrever a marcante apresentação.

P. Desde que o livro foi publicado há 3 anos, o que você ouviu dos leitores que você acha importante compartilhar com os novos leitores?

Que mais e mais deles enfrentam um diagnóstico pré-natal e que eles precisam do apoio que este livro dá. Não foi por acaso que na mesma semana que meu livro foi lançado, novos testes de sangue foram criados para que a mãe, na 10a semana de gestação, tenha 99% de certeza se o filho tem ou não Síndrome de Down. Eu acho que Deus planejou meu livro para ser publicado na época para ser um recurso para eles. A comunidade da Síndrome de Down está trabalhando duro para alcançar aos conselheiros genéticos e obstetras com panfletos de apoio, livros como o meu e treinamentos. Como a contribuidora Eileen Haupt gosta de dizer: "Um médico pode te dizer todas as complicações que a criança pode ter, mas apenas os pais podem te dizer toda a alegria que esta criança pode dar a vocês!”


P. O que você acha que pode dizer a uma mãe para convencê-la a não abortar uma criança especial?

Deus está com você, de falto Ele a elegeu para este presente que é uma criança com necessidades especiais e Ele lhe dará a graça para você satisfazer as necessidades de seu filho. Seu filho irá encher sua vida com uma alegria inimaginável, que é o que cada pai me disse, católico ou não, que estas crianças tem um dom espiritual da alegria e a habilidade de dar amor como poucos na terra. Sua vida está longe de ter acabado, será diferente do que você imaginou, mas isso é uma coisa boa. Barbara Curtis, uma das minhas autoras contribuintes, era uma amiga querida que já faleceu. Ela tinha três filhos com Síndrom de Down e tinha esta frase como sua assinatura de email "As graças de Deus colocam os melhores sonhos do homem no chão." ~Elizabeth Barrett Browning

P. Existe algo em comum em todas as histórias que você conta no livro?

A maioria dos pais passam por alguns estágios doe luto quando eles descobrem o diagnóstico de seu filho e isso é belamente descrito pela meditação de Emily Perl Kingsley "Bem vindo a Holanda." A história fala que uma gravidez de uma criança com necessidades especiais é como um casal que sai de viagem até a Itália, e esperam muitas coisas maravilhosas como sua família e amigos já experimentaram e estão repletos de expectativas para os sinais da Itália. Mas por um erro, o avião pousa na Holanda. De início, existe um desapontamento. Os pais se sentem traídos. A Holanda não é tão famosa como a Itália. Não tem a Torre Inclinada, não tem os canais de Veneza, não tem Michelangelo. Mas logo os pais descobrem que a Holanda tem campos de tulipas, e moinhos e Rembrandt. Eles abraçam o destino que eles não queriam e uma vez que ele revela sua beleza, eles ficam imaginando como alguem ainda quer ir para a Itália!

P. O que você acha que pode ser feito para melhorar como a sociedade vê as pessoas com necessidades especiais?
Mostrem seus filhos para a sociedade, na mídia, eles vendem a si mesmos! Christina tem muitos amigos em nossa comunidade. Vejam quantos adolescentes com Síndrom e de Down são eleitos como reis e rainhas das formaturas. Quanto mais os conhecem, mais os amam. Veja o vídeo no YouTube  “Dear Future Mom” (Querida futura mamãe) onde jovens com Síndrome de Down falam com uma mãe que está preocupada por seu filho ainda não nascido que tem necessidades especiais. Ele se tornou viral no mundo todo, com quase 7 milhões de visualizações. Eles tem muitos amigos por aí!


P. Tem algum outro comentário que gostaria de partilhar com nossos leitores?

Se Deus o está chamando para ser pai de uma criança especial seja pela adoção ou por nascimento, não tenha medo! Ele o equipará com maisgraça, dia a dia, para transformá-lo em um pai especial do momento que o bebê nascer. Ele tem grandes planos para vocês!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

HISTÉRICOS E BEIJA-FLORES

Ótimo texto do Pe. Nicolás Schweizer, publicado em Reflexões No. 63, de 15.07.2009.

O mundo dos afetos é um mundo de entrelaçamento de toda a personalidade. Segundo o Padre Kentenich, o coração é a harmonia entre o apetite sensível (sentimentos, paixões, instintos) e o apetite espiritual (vontade), entre o “animal” e o “anjo” em nós. Marca o equilíbrio pessoal. O objetivo dos afetos é o amor, a entrega ao outro, a entrega generosa ao tu humano ou divino.

Durante muito tempo não se deu a nossa vida afetiva o lugar que lhe corresponde. Acreditou-se que o decisivo era o intelecto e a vontade. É certo que eles, de acordo com a ordem objetiva, são superiores e estão chamados a iluminar e reger em definitivo nosso atuar. Mas é um grave erro, crer que o podem fazer sem a integração da vida afetiva. Frutos desse erro tem sido e são o homem racionalista e o homem voluntarioso, que negam ou sacrificam os sentimentos.

Sem o acordo do coração e dos afetos, a vontade pode fazer muito pouco. E a inteligência tampouco é capaz de conhecer “objetivamente” a realidade. Podemos concluir que a conduta humana em grande parte está definida e determinada pela zona dos afetos, pela zona do coração.

Agora, em que consiste a imaturidade afetiva? O Padre Kentenich costumava dar várias respostas a esta pergunta. Mencionava a histeria e a carência de vínculos firmes, ademais do infantilismo. Aclaremos um pouco duas dessas formas.

1. Histeria. É um grau de imaturidade, muito mais grave, mais delicado. A pessoa histérica gira tanto em torno ao “eu” que está possuída pelo “eu”. Está tão metida nessa busca de si mesmo que perde o bom senso. Não se lhe entende, não é um louco, mas é uma pessoa especial, neurótica.

E há uma coisa muito típica do histérico e é que busca chamar a atenção, quer estar sempre no centro, por qualquer meio. Para ele, muitas vezes inventa “enfermidades”.

Nossas “histerias” geralmente não são tão graves. Talvez exista entre nós gente histérica pela limpeza, ou pelos estudos, ou pela ordem, ou pela pontualidade, ou por não engordar, ou por não envelhecer. Existe um tipo de perfeccionismo enfermiço detrás disso: queremos que as coisas sejam perfeitas ao extremo. E o perfeito, muitas vezes é inimigo do bom.

2. Carência de vínculos firmes. É outro capítulo da imaturidade afetiva. Ao homem de hoje lhe custa amar, vincular-se em forma sã aos demais. E então temos dois extremos:

2.1 O amor instável. Uma pessoa que não tem vínculos profundos. É como uma mariposa em suas relações: incapaz de pousar, incapaz de penetrar, incapaz de fixar-se (beija-flor), incapaz de ser fiel. Vai provando de tudo um pouco, deixa-se levar pelas sensações. Por isso é instável afetivamente.

O que custa ao homem de hoje é a fidelidade, é comprometer-se para sempre, entregar-se por toda a vida. Entretanto, os grandes valores humanos são para toda vida: o amor, a família, o matrimônio, a religião, o sacerdócio, a santidade. Principalmente o amor, seja entre homem e mulher, seja entre a alma e seu Deus, é forte como a morte e até a morte. E se não é assim, não é amor. Há gente que o troca como a um vestido: joga fora o usado e compra um novo. O verdadeiro amor é duradouro e forte.

2.2 O outro extremo é o amor possessivo. É como uma trepadeira que não deixa crescer ao outro. Não é um vínculo para a liberdade, para a plenitude, se não um vínculo egoísta, um amor que afoga. Pode ser uma mãe ou um pai ou um amigo possessivo. Parece que essas pessoas só querem receber, têm uma fome terrível de receber. É como um barril sem fundo. E que horrível é para os filhos de pais possessivos: sofrem durante toda sua vida com esse problema.

Em síntese, a imaturidade afetiva é colocar o “eu” egoísta em primeiro plano, e o “tu” em segundo plano. Que todos adorem a meu “eu” e que eu possa dominar aos demais!

Perguntas para a reflexão

1.      Onde está minha imaturidade afetiva?
2.      Sou uma pessoa possessiva?
3.      Poderia enumerar alguma de minhas “histerias”?

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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A FAMÍLIA E O SOFRIMENTO - PARTE 2

Existem dois tipos de sofrimento: aquele que vem diretamente como consequência de uma ação do homem e outro que vem independente do seu agir.

Para a lógica humana é de certa forma mais fácil entender o primeiro tipo, aquele que é oriundo de uma ação, por exemplo, o fato de uma pessoa que fumou por muitos anos vir a sofrer com um câncer de pulmão. Todavia, o sofrimento, por exemplo, de uma criança com leucemia, parece realmente muito “injusto”, pois ela não teria feito nada para “merecer” aquele sofrimento.

Daí vê-se um dos grandes equívocos ao se analisar o sofrimento. Muitas pessoas dizem: “ah, ele não merecia isto” ou “por que aconteceu isto justamente com ele que é tão bom!”. O sofrimento não pode ser considerado um “castigo” de Deus. É simplesmente a consequência do pecado. Ninguém “merece” sofrimento, porém é necessário aprender a lidar com a dor, seja ela física ou moral, e a tentar compreender o que Deus pede para cada um com a permissão do sofrimento.

Sempre é possível extrair algum ensinamento do sofrimento, principalmente no que refere ao amadurecimento e a continua conversão que todas as pessoas necessitam. A pergunta que se deve fazer frente a uma aflição é: “Para que o bom Deus está permitindo isso? Como Ele deseja que eu encare esta provação?”

São Paulo ensina: "Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Mas se permanecêsseis sem a correção que é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos"[1]

É necessário encarar todo sofrimento também como prova do amor de Deus para consigo. Como ensinado por São Paulo, muitas vezes o Pai precisa corrigir seus filhos para que andem no caminho correto e esta correção pode nos causar dor, mas precisamos ter a certeza de que “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus.”

O Pe. José Kentenich, Fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, elucida:
A cruz, o sofrimento e os golpes do destino: todos eles são pequenos profetas do amor divino. De fato: não só ‘também’ a cruz e o sofrimento, mas de modo eminente a cruz e o sofrimento. É sabido, nossa natureza resiste de muitas maneiras a esta compreensão. Na vida de Santo Agostinho, atribui-se a sua mãe as palavras: nesciebat, ideo flebat. (não sabia, por isso chorava). Agostinho havia se dirigido até Ostia contra a sua vontade. Ela pensava que todas as tentativas de conversão de seu filho iriam terminar; não sabia que lá a graça esperava. Assim também em meu caso. Eu não sabia que a cruz e o sofrimento eram uma graça do Pai celestial. (...) A cruz e o sofrimento são, eles mesmos, profetas de Deus. Precisamos apenas escutar e compreender sua linguagem muda. Homens santos nos dizem que Deus alcança de maneira infalível seu objetivo educativo através da cruz e do sofrimento; obviamente – acrescentam, em sábia reflexão, - sempre que o homem não se afaste da cruz e do sofrimento. O Pai poda os sarmentos, a fim de que produzam mais fruto. Isto é o que devia pensar, amar, experimentar, quando me chega uma cruz. Se não ofereço resistência, Ele alcançará com certeza seu objetivo em mim. Por isso, homens santos aconselham, com  inteligência, que deveríamos nos educar para agradecer tanto mais intensamente quanto mais forte seja o martelar da dor sobre a alma e o corpo.Cada cruz e cada sofrimento deve encontrar nosso Deo gratias nos lábios pois descobrimos no sofrimento um mensageiro do amor. Também desta perspectiva puramente psicológica é de muita valia que façamos daquilo que causa dor à nossa natureza o objeto de nossa alegria. Mesmo quando somente obtivermos o apoio do vértice da vontade. Obviamente, uma coisa não podemos esquecer neste contexto: se uma criança come uma fruta que não está madura e fica doente, deverá se manter longe dela no futuro. Assim, pode acontecer que eu seja culpado pela cruz e pelo sofrimento. Neste caso, devo evitar depois a dor na medida em que me seja possível; não devo continuar comendo uma fruta que não está madura – por exemplo, manter um trabalho que não sou capaz-. Sendo tão grande o significado da cruz e do sofrimento, Deus envia este mensageiro do amor a quem mais ama, a homens heroicos – que já o são ou que Ele quer educar para que cheguem a sê-lo-. Por esta razão, encontra-se a dor em maior medida na vida dos santos.”[3]   (grifos nossos)

A melhor maneira de enfrentar o sofrimento é se unindo a Jesus crucificado, tendo a esperança que tudo passa, que no momento da dor, o Pai deseja apenas que aceitemos a nossa cruz e a carreguemos com coragem, sem desânimo. Podemos chorar, mas sem desespero, tendo a certeza de que, como diz o ditado “no final, tudo acaba bem e se não está bem é porque ainda não acabou!”

Jesus é o grande mestre do sofrimento. Ele ensina a sofrer, mantendo-se sempre fiel à vontade do Pai, pois sabe que o Pai só quer o bem do filho. Pode-se pedir que o Pai afaste o sofrimento, como Jesus mesmo fez no Horto das Oliveiras, mas a convicção deve ser: que não se faça a minha vontade, senão a do Pai.

"Caríssimos, não vos perturbeis com o fogo da provação, como se vos acontecesse coisas extraordinárias. Muito pelo contrário, alegrai-vos em ser participantes dos sofrimentos de Cristo”[4]. Com estas palavras, S. Pedro ensina que não devemos ficar surpreendidos pelo sofrimento, pois ele faz parte da vida do cristão, mas devemos nos alegrar por podermos fazer parte dos sofrimentos de Jesus.

Esta alegria em sofrer só poderá ser alcançada com muita oração e entrega, pois na hora da dor, a tendência é se fechar em si mesmo, sentir auto-piedade e procurar de todas as formas afastar o sofrimento. Todavia, esta fuga do sofrimento, ao invés de amenizá-lo, acaba aumentando e prolongando-o.

É preciso ressaltar, contudo, que não devemos procurar o sofrimento. Deus sabe a medida de cada um, a cruz que cada um deve carregar para se santificar, assim não precisamos aumentar esta carga desnecessariamente, pois isto também não é a vontade do Pai.  

Cada pessoa precisa assumir com amor e fidelidade a sua cruz e levá-la até o fim, contando sempre com a graça de Deus. Diz o Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2015: "O caminho da perfeição passa pela cruz. Não existe santidade sem renúncias e sem combate espiritual".

Alguns pensamentos dos santos sobre o sofrimento:

Santo Afonso: “Neste vale de lágrimas não pode ter a paz interior senão quem recebe e abraça com amor os sofrimentos, tendo em vista agradar a Deus”. Segundo ele “essa é a condição a que estamos reduzidos em consequência da corrupção do pecado”.
São João Crisóstomo: “É melhor sofrer do que fazer milagres, já que aquele que faz milagres se torna devedor de Deus, mas no sofrimento Deus se torna devedor do homem”.
Santo Agostinho: “Quando se ama não se sofre, e se sofre, ama-se o sofrimento”.
“O martírio não depende da pena, mas da causa ou fim pelo qual se morre. Podemos ter a glória do martírio, sem derramar o nosso sangue, com a simples aceitação heróica da vontade de Deus”.
São Francisco de Sales: “As cruzes que encontramos pelas ruas são excelentes, e que mais o são ainda – e tanto mais quanto mais importunas – as que se nos deparam em casa”. [1]



[1] Hb 12, 6-8
[2] Carta Apostólica Salvici Doloris de João Paulo II, item 12
[3] “El hombre heróico – Ejercicos Espirituales com la guía de San Ignacio y su método”, KENTENICH, José. 2ª edição, Editorial Patris, Santiago/Chile 2004, pgs. 198-200. Tradução livre da autora.
[4] 1Pd 4,12
[6] http://www.cancaonova.com/portal/canais/formacao/internas.php?e=12028
CRÉDITOS DAS FOTOS: PHOTOPIN.COM

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A FAMÍLIA E O SOFRIMENTO - PARTE 1

“Deus é tão digno do nosso amor, quando nos consola, como quando nos faz sofrer!" (São Francisco de Salles)

O SOFRIMENTO

A dor e o sofrimento fazem parte da existência humana. Desde o nascimento até a morte o ser humano sofre e caso não encontre um sentido para todo este sofrimento, pode viver angustiado e deprimido.

“O homem sofre quando experimenta um mal qualquer. No âmago daquilo que constitui a forma psicológica do sofrimento encontra-se sempre uma experiência do mal, por motivo do qual o homem sofre.”[1]

Assim, pode-se dizer que o sofrimento é uma consequência do mal que entrou na vida do ser humano a partir do pecado original, da desobediência do homem aos planos de amor de Deus Pai.

Deus é Amor, Deus é Bom e Deus é Pai, portanto Deus nunca quer o mal, pois o mal é contrário a Sua natureza; todavia Ele, que é Onipotente e poderia acabar com o mal se assim quisesse, permite a existência do mal, pois o que mais respeita é a liberdade humana, o livre arbítrio onde cada pessoa pode escolher se deseja seguir o caminho do bem ou o caminho do mal. E ainda, por ser todo poderoso, é o único capaz de tirar o bem do mal.[2]

Sem a liberdade o ser humano não passaria de um “robô” e como tal não poderia corresponder ao amor de Deus. Desta forma, Deus espera uma resposta de amor de cada pessoa para seguir seus planos e um dia voltar a Sua casa, porém, caso a pessoa escolha outro caminho, por amor respeita a sua vontade, mas também esta escolha traz consequências para si mesma e para toda a humanidade.

 “Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha vida eterna. De fato, Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele.”[3]

São João, nos versículos citados acima, afirma que foi o amor infinito de Deus por toda a humanidade que o levou a enviar Jesus Cristo ao mundo, para através do seu sofrimento, salvar toda a humanidade. O mal e o sofrimento entraram no mundo em virtude da desobediência do ser humano e então, o mundo foi redimido através da obediência do Filho aos planos do Pai, por meio de sua paixão e morte na Cruz.

“É por meio deste seu sofrimento que ele (Jesus) tem de fazer com que « o homem não pereça, mas tenha a vida eterna ». É precisamente por meio da sua Cruz que ele deve atingir as raízes do mal, que se embrenham na história do homem e nas almas humanas. É precisamente por meio da sua Cruz que ele deve realizar a obra da salvação. Esta obra, no desígnio do Amor eterno, tem um caráter redentor.”[4]

O sofrimento, a dor, analisados apenas sob a luz da razão natural são um total absurdo, pois contradiz o chamado à felicidade que cada um traz dentro de si mesmo. Portanto,o sofrimento só pode ser compreendido se analisado sob a luz da fé, como forma de adesão aos sofrimentos de Cristo, se tornando, desta forma, um meio de salvação.

“Vimos que, examinar a dor a luz da pura razão natural se apresenta como algo absurdo e contraditório, por ser uma certa participação na morte e um processo de desintegração daqueles que estão intimamente orientados para a felicidade. A fé vem a corroborar esta reflexão dizendo-nos que o pecado foi efetivamente a ruptura com a fonte mesma da vida. Não é de estranhar, então, que o pecado tenha uma relação causal com a morte e a dor. Todavia, à luz desta mesma revelação, o crente está em condições de encontrar seu sentido, a partir da ação misericordiosa de Deus que oferece a redenção, mas sem abolir a liberdade do homem. A vocação ao amor, a comunhão e à felicidade permanecem mas, para alcançar sua meta, é preciso fazer um bom uso da liberdade se aderindo a Cristo.Neste contexto, a dor, que foi fruto do pecado e do afastamento de Deus e da felicidade, se transforma, através de Jesus Cristo, em caminho de reencontro. Assim adquire sentido.” [5]



[1] Carta Apostólica Salvici Doloris de João Paulo II, item 7
[2] Conforme Santo Agostinho († 430) e São Tomás de Aquino († 1274): "A existência do mal não se deve à falta de poder ou de bondade em Deus; ao contrário, Ele só permite o mal porque é suficientemente poderoso e bom para tirar do próprio mal o bem" (Enchiridion, c. 11; ver Suma Teológica l qu, 22, art. 2, ad 2).
[3] Jo 3,16-17
[4] Carta Apostólica Salvici Doloris de João Paulo II, item 16

[5] “Perspectiva cristiana del dolor humano”, pg. 56, P. Jaime Fernández M., editora Nueva Patris, Santiago, Chile, 2008 
CRÉDITOS DAS FOTOS: PHOTOPIN.COM

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A GRAÇA DO SIM

Hoje gostaria de falar sobre o livro "The Grace of Yes - Eight Virtues for Generous Living" (A Graça do Sim - Oito Virtudes para uma Vida Generosa) escrito pela minha amiga Lisa Hendey. É um livro maravilhoso. Eu sempre me surpreendo da forma com que a Lisa abre seu coração e nos conta sobre suas lutas e sucessos, nos encorajando a ir mais profundamente em nosso caminho rumo ao Céu, um passo de cada vez.

Este livro também mostra uma sincronia entre os ensinamentos da Igreja, especialmente o que é muito querido ao Papa Francisco: a "cultura do encontro" e também a alegria de espalhar a Palavra de Deus com "entusiasmo infectante". Lisa nos desafia a cada dia dizer ao nosso Pai: "Seus planos, meu sim."
Encorajo aqueles que puderem a adquirir o livro pela Amazon.com. A leitura é muito agradável e também desafiadora.

Amanhã, dia 18.11.14, a Autora está promovendo o Dia da Graça do Sim (Grace of Yes Day), para além de promover o livro, incentivar a todos a sermos mais abertos a dizermos nosso "sim" aos planos amorosos de Deus para a nossa vida. Quem quiser participar, basta tirar uma segurando um cartaz (podem fazer o download no link https://www.avemariapress.com/graceofyesday 
E depois postar no facebook ou outra mídia social com #graceofyesday.

Vamos participar!! A minha já está aqui...

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

MATURIDADE AFETIVA

Hoje mais um post do Pe. Nicolás Schweizer, publicado em 15.11.2009, nas Reflexões No. 71.

     Em que consiste a maturidade afetiva? Duas palavras podem definir esta maturidade: primeiro, o controle de si mesmo e, segundo, a entrega de si mesmo. 
1. O controle de si mesmo


Poderíamos falar também de equilíbrio emocional que é a capacidade de dominar os próprios impulsos, tendências e tensões. É impossível a entrega de si mesmo, se antes não se possui, se não se domina, se não tem autodomínio. Através do meu autodomínio serei portador de vida e amor para meu cônjuge, meus filhos, meus irmãos de grupo, meus amigos.

 Nossa maturidade há de avivar a vida que encontramos em nosso lar e a nossa volta. Em lugar de desabar, de destruir, de matar por minha superficialidade, meu comentário inoportuno, meu desabafo, minha falta de autodomínio, dou justamente um pouco mais de vida. Um amor que não conduza a vida, não é amor. O egoísmo é portador de morte, o amor é portador de vida. 
     Controle de si mesmo significa possuir um mundo interior rico, cultivado, que inclui um bom grau de intimidade pessoal, de privacidade. Há gente muito rica interiormente, mas que não se controla, porque está sempre conversando, está falando permanentemente. 

E o que fala muito se equivoca; o que fala pouco se equivoca menos; e o que não fala não se equivoca, isso normalmente. A pessoa que tem necessidade de contar a qualquer um tudo o que vive, não tem intimidade, não tem controle de si. Porque controlar-se significa também momentos de silêncio, momento de recolhimento, momentos de oração, assim vai assimilando o que Deus semeia em nós.

Aqui podemos ver o sentido do sigilo. Ninguém confiará em nós, se não existe sigilo. O que é o sigilo? Controle de si. Não estar com uma vontade louca de contar ao primeiro que aparece. Quão importante é auto educar-se nesse aspecto!
     
     Mesmo que seja dizer-se: morro de vontade de contar a meu marido tal coisa, mas não, vou esperar uma hora e depois o conto. Ou escutamos uma fofoca. Seja verdade ou mentira, se a sigo contando, o único que faço é semear morte, não vida. Mato a fama de meu irmão, coloco em dúvida tal coisa dele. Assim é que de minha parte, acabou-se a fofoca. Guardar segredos tem um caminho bem concreto de controle de si mesmo. Há que ver como a gente se abre quando encontra uma pessoa capaz de escutar e permanecer calada depois.
     
     Outro pequeno exercício, junto com manter o sigilo, é não desafogar-se por qualquer coisa, em qualquer momento e frente a qualquer pessoa. Melhor é postergar esses desafogos: amanhã falarei disso com meu cônjuge, ou na próxima semana. Assim nos tornamos pessoas que não se sufocam, e por isso não necessitam desafogar-se. 
     
      2. A entrega de si mesmo

O controle de si pode acabar em egoísmo. Por isso o segundo aspecto da maturidade afetiva: a entrega de si. Uma vez que eu estou controlando a mim mesmo, vou entregando-me, vou brindando-me. A entrega de si é uma capacidade, a de sair de um “eu” receptivo e egoísta, para ser fecundo no “tu” e em nós. Dar-me, entregar-me, é uma tarefa que se aplica em todos os âmbitos de nossa vida: no trabalho, na família e no matrimônio, na sociedade, na paróquia, na relação com Deus. Em todos os âmbitos estou sempre me controlando e entregando-me, sempre nesse jogo. E o belo de tudo isso é que quanto mais me dou, mais recebo: mais alegria, mais segurança, mais amor, mais sabedoria, mais felicidade. Dizíamos que o amor possessivo é como um barril sem fundo. Este amor, o amor de oblação, de oferecimento, se enriquece sem medida. E quanto mais se dá, tanto mais se controla a si mesmo. 


Perguntas para a reflexão

1.      Comento o que escuto sem antes verificar a verdade?
2.      Espero umas horas antes de contar algo?
3.      Escuto aos demais ou os “perturbo” com minha conversação?
créditos das fotos: photopin.com

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

AMADURECIMENTO DO AMOR

O idioma grego traz três palavras que são relacionadas ao amor: eros, philia e agape. O amor eros pode ser definido como o amor de concupsciencia, ou seja, aquela atração existente entre os sexos que busca a realização dos próprios instintos, do próprio prazer. O amor philia é o amor de amizade, o amor entre irmãos, aquele sentimento de querer bem o outro, de gostar de alguém. Já o amor agape seria o verdadeiro amor, o amor por excelência, o amor de Deus pelo homem, aquele amor capaz de dar sua vida pelo bem do ser amado. 
Todo amor entre homem e mulher inicia-se com o eros. É aquela primeira atração, a vontade de ficar juntos, de trocar carinhos, de sentir prazer com o outro. É um amor que pensa na própria felicidade. Não que o outro também não possa ser feliz, mas a prioridade é estar bem, alegre, tendo satisfação no relacionamento. 
O grande problema dos relacionamentos atuais é que, contaminados pela filosofia hedonista, os casais permanecem apenas no eros, estando dispostos a permanecerem juntos apenas enquanto o prazer, a alegria, estiverem presentes. Assim que aparecem as primeiras dificuldades, acreditam que o amor “acabou” e que precisam passar para um outro relacionamento mais prazeroso.
Porém, todo amor verdadeiro tem a vocação de sair do puro eros e chegar até o agape, ou seja, deixar de pensar em si mesmo e passar a pensar no bem do outro, chegando ao ponto de estar disposto a dar a própria vida pela felicidade do outro.
“Como deve ser vivido o amor para que se realize, plenamente, a sua promessa humana e divina? Uma primeira indicação importante podemos encontrar no Cântico dos Cânticos, um dos livros do Antigo Testamento bem conhecido dos místicos. Segundo a interpretação hoje predominante, as poesias contidas neste livro são, originalmente, cânticos de amor, talvez previstos para uma festa israelita de núpcias, na qual deviam exaltar o amor conjugal. Nesse contexto, é muito elucidativo o fato de, ao longo do livro, serem encontradas duas palavras distintas para designar o ‘amor’. Primeiro aparece a palavra dodim, um plural que exprime o amor ainda inseguro, numa situação de procura indeterminada. Depois, essa palavra é substituída por ahabà, na versão grega do Antigo Testamento, é traduzida pelo termo, de som semelhante, ágape, que se tornou, como vimos, o termo característico para a concepção bíblica do amor. Em contraposição ao amor indeterminado e ainda em fase de procura, esse vocábulo exprime a experiência do amor que agora se torna, verdadeiramente, descoberta do outro, superando, assim, o caráter egoísta que antes, claramente, prevalecia. Agora, o amor torna-se cuidado do outro e pelo outro. Já não se busca a si próprio, não se busca a imersão no inebriamento da felicidade; procura-se ao invés, o bem do amado: torna-se renúncia, está-se disposto ao sacrifício, e até o procura.
Faz parte da evolução do amor para níveis mais altos, para as suas íntimas purificações, que ele procure, agora, o caráter definitivo, e isso num duplo sentido: no sentido da exclusividade – ‘apenas esta única pessoa’ – e no sentido de ‘ser para sempre’. O amor compreende a totalidade da existência em toda a sua dimensão, inclusive a temporal. Nem poderia ser de outro modo, porque a sua promessa visa o definitivo: o amor visa a eternidade. Sim, o amor é ‘êxtase’, êxtase não no sentido de um instante de inebriamento, mas como caminho, como êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a libertação no dom de si mesmo, e mais ainda, para a descoberta de Deus: ‘Quem procurar salvaguardar a vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á’ (Lc 17,33) – disse Jesus; afirmação que se encontra nos evangelhos com diversas variantes (cf. Mt 10, 39; 16,25; Mc 8,35; Lc 9,24; Jo 12,25). Assim descreve Jesus seu o seu caminho pessoal, que o conduz, através da cruz, à ressurreição: o caminho do grão de trigo que cai na terra e morre e, desse modo, dá muito fruto. Partindo do centro do seu sacrifício pessoal e do amor que aí alcança a sua plenitude, ele, com tais palavras, descreve também a essência do amor e da existência humana em geral.”[1] (grifos nossos)
Eis o grande desafio: cada um deve sempre se esforçar para, pouco a pouco, afastarem-se de seu egoísmo, de buscar sempre o seu próprio prazer, saindo de si mesmos para ir ao encontro do outro, acolhendo-o como ele é, com suas qualidades e limitações, solidificando seu amor em um amor incondicional e voluntário, ou seja, no agape.
Assim, marido e esposa que buscam o ágape, alimentando seu amor com sacrifícios e renúncias do próprio eu, se tornarão pessoas cada vez mais maduras e alcançarão o verdadeiro sentido do matrimônio: se tornarão uma só carne.




[1] Carta Encíclica Deus Caritas Est do Sumo Pontífice Bento XVI, 2ª edição, 2006, editora Paulinas, pgs. 13-15

terça-feira, 11 de novembro de 2014

TORNAR-SE UMA SÓ CARNE

Ser cônjuge significa “estar sob o mesmo jugo”; ser consorte é “partilhar da mesma sorte”. Assim, homem e mulher unidos pelo matrimônio, partilham o mesmo jugo, o mesmo peso, carregam junto o fardo que muitas vezes a rotina lhes traz, estão sujeitos as mesmas alegrias e infortúnios da vida e por isso devem formar uma só carne.
Formar uma só carne é o próximo passo no crescimento da maturidade dos cônjuges e de seu amor e significa buscar uma perfeita solidariedade de vida e de destinos, que só pode ser alcançada através de um profundo e verdadeiro amor.
“Todo amor verdadeiro supõe esforço e compromisso livre, ou seja, eu me comprometo livremente a colocar tudo de minha parte para irmos juntos construindo uma relação de amor verdadeiro. Isto supõe a vontade de minha parte de querer fazer feliz ao outro e ao consegui-lo, os dois se tornam felizes.”[1]
Mas o que é o verdadeiro amor? São Paulo diz:
“O amor é paciente, o amor é prestativo; não é invejoso, não se ostenta, não se incha de orgulho. Nada faz de inconveniente, não procura seu próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor. Não se alegra com a injustiça, mas se regozija com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais passará.”[2]
O contrário do amor não é o ódio como muitos podem pensar. O contrário do amor, o que acaba com o amor, é o egoísmo. O egoísmo leva as pessoas a agirem pensando em si mesmas em primeiro lugar. O amor as leva a agir pensando no outro, na felicidade do outro, no bem do outro. E agir desta forma custa muito sacrifício e renúncia. Pensar e agir tendo o outro em mente muitas vezes pode ser doloroso, pois precisa abrir mão do próprio eu, das suas vontades, das suas idéias.
Não se fala em abrir mão de sua própria personalidade para viver a vida do outro, mas em buscar sempre o que mais lhe agrada, o que lhe faz feliz. Muitas vezes isto significa ser contrário a sua opinião, mostrar onde acredita que está errado, mas sempre com muito respeito, buscando o melhor momento para falar, sem agredir ou ofender. 
Assim, cada um deve se preocupar em acabar com todo o egoísmo em si mesmos, pois cada vez que age pensando em seu próprio bem em primeiro lugar, está diminuindo seu amor pelo outro.
A palavra-chave para compreender o amor é sacrifício. Não se pode desvincular um do outro. Amor e sacrifício caminham juntos; onde um não está presente, o outro também não está. Pode-se perguntar: qual é a maior prova de amor que Deus Pai deu para a humanidade? Sua maior prova de amor por toda a humanidade foi o sacrifício de seu Filho Único, Jesus Cristo, pelo seu bem, pela sua salvação.
Cita-se um exemplo de como a sabedoria divina confirma que não existe amor sem sacrifício: todos afirmam que o amor de mãe, é um amor puro, amor incondicional, que pensa sempre em primeiro lugar no filho, chegando ao ponto de dar sua própria vida para salvar o fruto de seu ventre. Mas como uma mulher, que até engravidar, é um ser humano “comum”, começa a possuir esse tipo de amor, o “ amor de mãe”? Como Deus age para “transformar” essa mulher em mãe? Deus prepara uma mulher para ser mãe através de toda a dificuldade e todos os sacrifícios e renúncias que ela, a partir da gravidez, precisa fazer pelo bem do filho que carrega em seu ventre. Quanto mais a mulher se sacrifica pelo bem do bebê, mais cresce esse amor. E quando o bebê nasce, então? Além do parto (um grande sofrimento físico e emocional – mesmo se for cesariana!), os primeiros meses podem ser definidos como sacrifício atrás de sacrifício. Assim nasce o amor materno!
A análise da presente afirmação sob a ótica da filosofia hedonista, tudo isso é um grande absurdo, pois o sacrifício é o contrário do prazer. Porém, o que se observa na prática é que quanto mais a pessoa se sacrifica pelo outro, mais o seu amor aumenta e ela é cada vez mais feliz! A lógica de Deus é essa: renúncia e sacrifício se transformam em amor e felicidade.




[1] “Yo te elijo a ti, para simpre”, pg. 53, Material elaborado por casais monitores de noivos, assessorado pelo padre Horacio Rivas R., Sch, Editora Nueva Patris, Santiago/Chile, 2011, tradução livre da autora
[2] 1Cor 13, 4-8
CRÉDITO DA FOTO: POHTOPIN.COM

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

DEIXAR-SE CONHECER

Conhecidos os temperamentos de cada cônjuge, o próximo passo para que se realize a união dos dois é o “deixar-se conhecer”: marido e esposa precisam abrir-se ao outro, revelar o que passa dentro de si, seus anseios, sonhos, necessidades, dúvidas, enfim, o seu “ser”. Somente através do conhecimento profundo do outro é que a união se torna possível.
O conhecimento do outro só é possível através do diálogo. “Diálogo é o encontro pessoal e personalizante entre duas ou mais pessoas.”[1]Assim, para existir o diálogo é necessário que haja um encontro pessoal com o outro, ou seja, reservar um tempo para estar com seu parceiro e então poderem estabelecer esta comunicação.
Para haver realmente a comunicação aberta entre os cônjuges é necessária uma atitude de profundo respeito pela personalidade do outro, uma vontade firme de buscar este conhecimento e também de deixar-se conhecer, uma abertura ao outro, a aceitá-lo como ele é, com suas capacidades e imperfeições, como obra-prima do Criador.
Deve-se ressaltar, porém, que esta abertura ao outro tem um certo limite, o chamado “mistério da personalidade”.
“Em toda pessoa há uma riqueza profunda que não pode ser esvaziada. Nós falamos do sacrário do coração, sacrário da alma, aquele último cantinho que pertence somente a Deus. (...) Mantenho, então, um mínimo de reserva, um mínimo de interioridade: não me descrevo totalmente por dentro senão que deixo sempre algo que no fundo se entrevê. (...) É aos poucos, por conseguinte, que descubro esta grandeza, algo do que há de Deus no tu. Tenho que aprender a descobrir, a olhar o outro, o tu, com o olhar de Deus à luz da fé. Assim, vou descobrindo cada vez algo mais interessante e me vou enamorando cada vez mais. (...) Devemos ter cuidado com o que um revela para o outro, seja na ordem da miséria ou da grandeza pessoal. Podemos revelar só em parte; o mais íntimo e o mais profundo de minha oração e de meu encontro com Deus, sempre permanecerá um mistério para o outro. (...) Há coisas que pertencem à comunidade conjugal e coisas que são pessoais. O que é conjugal, o que é da comunidade, deve se dizer sempre. Por exemplo, se há problemas econômicos, o marido não irá inquietar a mulher com esses problemas, porém informa-a de tal maneira, que ela saiba em quem carro está andando. Todavia, há outras coisas que são estritamente pessoais, e o limite entre o conjugal e o pessoal é diferente para cada pessoa e para cada casal.”[2]
Existe uma grande diferença entre conversar e dialogar. Na conversa, as pessoas falam de algo que não lhes dizem respeito diretamente e refere-se a fatos exteriores que não as envolvem pessoalmente, transmitindo apenas informações, como, por exemplo falar de outras pessoas, ou de acontecimentos gerais, sobre o clima, etc.
No diálogo, todavia, existe uma comunicação do que se passa no interior da pessoa, o que ela sente, como ela pensa a respeito de determinado assunto, o que gosta ou não gosta, quais são seus sonhos, alegrias, projetos, etc.[3]
Portanto, na família deve se procurar sempre o diálogo como forma de conhecer o outro, de saber o que pensa, como pensa, pois somente o diálogo pode proporcionar este conhecimento. As conversas sempre existirão, porém, é aconselhável tentar transformar as simples conversas em diálogos, extraindo da mera comunicação dos fatos o que o interlocutor pensa a respeito dos mesmos.
Todos possuem a necessidade de serem compreendidos e valorizados. A compreensão é uma forma de aceitação do outro como ele é, com toda sua originalidade. E a necessidade de ser acolhido e valorizado pressupõe que o outro realmente saiba como a pessoa realmente é, ou seja, a compreenda.
Desta forma, o diálogo conjugal é fundamental para a compreensão mútua, a aceitação recíproca e assim, o amadurecimento do amor. Para que o diálogo seja fecundo, o mesmo precisa ser revestido de respeito e amor. O respeito leva a pessoa captar a grandeza do outro e o amor leva a se interessar e procurar se abrir para o outro.
Uma das características para que este diálogo seja proveitoso é que os cônjuges devem saber escutar.
“Escutar pacientemente, sabendo que temos sempre algo a aprender com o outro. Saber escutar é condição indispensável para o diálogo. Do contrário, não passará de um monólogo. A atitude de escutar é um respeito devido a quem nos fala.(...)Pessoas prepotentes excluem a possibilidade de um diálogo, pois ninguém gosta de conversar com quem sempre tem razão.”[4]
O ideal é que o casal dialogue sempre. Para garantir esse diálogo, recomenda-se, que pelo menos uma vez na semana, por um período de cerca de uma hora, o casal se reúna para dialogar. Deve ser um compromisso assumido pelos dois, marido e mulher, em prol de sua família, de seu relacionamento, para o cultivo do seu amor.
Portanto, o “deixar-se conhecer” é realizado através do diálogo conjugal que precisa ser bem cultivado pelo casal e assim caminharão mais seguramente no caminho da plena comunhão de vida e alcançarão a tão sonhada felicidade.




[1] “Diálogo em quatro dimensões”, TOALDO, Olindo e Marilene, pg. 37, Scala Gráfica e Editora, Atibaia/SP, 2003.
[2] “Matrimônio, vocação de amor”, Fernandez, Jaime, pgs. 33-35, impresso como manuscrito – 1989 – Movimento Apostólico de Schoenstatt, Santa Maria/RS
[3] “Diálogo em quatro dimensões”, TOALDO, Olindo e Marilene, pg. 56, Scala Gráfica e Editora, Atibaia/SP, 2003.
[4] “O dever de sentar-se. Diálogo Conjugal”, Equipes de Nossa Senhora, 2ª edição, Edições Paulinas, p.24-25 São Paulo, 1982
CRÉDITOS DAS FOTOS: PHOTOPIN.COM