terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O ESPÍRITO DA SAGRADA FAMÍLIA

Esta reflexão do Pe. Nicolás Schweizer, publicado em Reflexões No. 64, de 01.09.2009 nos leva a refletir sobre a festa de hoje, que comemora a Sagrada Família de Nazaré.

O espírito exemplar que reinava em Nazaré, a Igreja o quer despertar hoje, para que reine em todas nossas famílias. Penso que o espírito da Sagrada Família era ‑ ante tudo ‑ um espírito de amor, um espírito de fé e um espírito de sacrifício.

a) Um espírito de amor. É um amor que mutuamente se aceita, se sustém e se suporta ‑ apesar de todos os defeitos e limitações, porque Deus mesmo tem escolhido e unido seus membros.

1. Devemos reviver em nossa família, em primeiro lugar, o mistério da Sagrada Família: o amor redentor de Cristo.

Em Cristo, o marido é responsável da salvação de sua esposa. Tem que amá-la até salvá-la. A mulher é responsável da salvação de seu marido. Os pais são responsáveis pela salvação de seus filhos: é sua principal missão, da que algum dia se lhes pedirá conta. E os filhos, pouco a pouco, à medida que vão crescendo, vão fazendo-se responsáveis da salvação de seus pais, responsáveis de amá-los até salvá-los.

2. De acordo com a imagem de Maria e José, o amor dos pais entre si e aos filhos deve ser em segundo lugar, um amor desinteressado e respeitoso.

Educar é servir desinteressada e respeitosamente à originalidade e particularidade dos filhos. Significa despertar e fazer desenvolver os dons que Deus há depositado em cada um deles.

Sem dúvida, isto exige muito tempo, muita energia, muita paciência dos pais, porque é sua tarefa mais criativa, mais difícil, mas também a mais fecunda e bela. Os pais devem ver e reconhecer Jesus em seus filhos, tal como na Família de Nazaré. Eu educo e amo em meu filho ao próprio Jesus Cristo: “Quem recebe a uma criança como esta, recebe a mim”.

3. Segundo o exemplo de Jesus, o amor dos filhos aos pais deve ser obediente e respeitoso. Ele mesmo, filho de Deus, permaneceu submisso a seus pais até a idade de trinta anos. Recordemos aquele texto do Evangelho, quando tinha doze anos: “Jesus foi com eles a Nazaré e seguiu sob sua autoridade”.

b) Um espírito de fé. O espírito de amor baseia-se num profundo espírito de fé e confiança.

Na Santa Família de Nazaré, como na nossa, foi necessário ter confiança mútua, demonstrar a fé todos os dias. José teve que ter uma fé cega em Maria; teve que crer n’Ela de uma maneira extraordinária, teve que amá-la muito para chegar a crer tanto n’Ela. E Maria teve que crer em José; teve que confiar em seu amor puro, em seu respeito, em sua estima.

José e Maria tiveram que ter fé em seu Filho. Mesmo que não parecesse mais que uma criança como todas, acreditaram sempre no mistério que vivia n’Ele. Não sempre compreenderam tudo o que Ele fazia tudo o que lhes dizia, mas eles confiavam n’Ele, acolhiam suas palavras e as meditavam.

E Jesus demonstrava a confiança que tinha em seus pais: esteve com eles durante longos trinta anos.

c) Um espírito de sacrifício. Espírito de amor autêntico e de fé profunda levam consigo o espírito de sacrifício. E para a Sagrada Família os sacrifícios e sofrimentos começaram cedo:

·         O nascimento na solidão e miséria. Nunca se encontraram mais pobres, mais fatigados nem mais sozinhos que quando nasceu o Senhor.
·         Depois, a matança dos Inocentes: como primeiro resultado do nascimento do Salvador, as famílias do país em luto, as crianças menores de dois anos assassinadas.
·         E a fuga da Família, em plena noite, a Egito; a estadia lá como fugitivos.
·         E assim ocorreu durante toda sua vida, até o dia escuro do Calvário.

Os sacrifícios são próprios da vida familiar. Todos sabemos e o experimentamos sempre de novo. Por isso é necessário um espírito profundo de sacrifício para cada família que está em caminho rumo ao ideal da Santa Família de Nazaré.

Perguntas para a reflexão

1.      Respeito as decisões de meus filhos?
2.      Como educo no respeito a meus filhos?
3.      Como sobrelevo os sacrifícios da vida familiar?

crédito da foto: photopin.com

sábado, 13 de dezembro de 2014

AJUDAR OS FILHOS A SOFRER

O maior desejo dos pais é que os filhos não sofram; que sejam sempre felizes e se realizem como pessoas. Todavia é impossível afastar todos os sofrimentos dos filhos. O sofrimento é necessário para o amadurecimento do ser humano. Assim, os pais não devem poupar os filhos do sofrimento, mas ensiná-los a sofrer.

Uma das melhores coisas que se pode fazer pelas crianças, desde muito cedo, é educá-las a enfrentarem seus sofrimentos, suas limitações, das pequenas frustrações do dia-a-dia até problemas mais sérios, como dificuldades na escola e questões de saúde.

Quando, por exemplo, a criança precisa tomar uma vacina ou medicação através de injeção, os pais podem utilizar esta oportunidade para explicar a criança que realmente aquele procedimento será doloroso, mas que é para o seu próprio bem, então ela precisa ter coragem e enfrentar este momento para se tornar mais forte. Os pais também explicam que estarão lá, ao lado dela, segurando sua mão, para que ela enfrente este momento de dor com o seu apoio, assim, tudo será mais fácil.

Ao procederem desta forma, não ocultando o sofrimento que está por vir ou muito pior, mentindo que ela não sentirá dor, os pais ajudam a criança a se fortalecer perante as dificuldades que a vida traz. Além disso, podem ser um transparente de Deus para seus filhos, pois quando a pessoa sofre, precisa saber que Deus está ao seu lado, segurando sua mão e a ajudando a passar aquele momento de dificuldade.

Outra atitude muito proveitosa para os filhos é quando os pais permitem que eles resolvam seus próprios problemas. Muitas vezes no afã de poupar os filhos do sofrimento, ou na vontade de resolver tudo para os filhos, os pais (neste caso principalmente a mãe) já tomam a iniciativa de solucionar qualquer conflito ou qualquer dificuldade que os filhos apresentam.

Porém, ao invés de auxiliar os filhos, esta atitude superprotetora acaba por minar a autoestima deles, pois demonstra que os pais não confiam que seus filhos possam resolver seus problemas, precisando de sua interferência constante. Portanto, o melhor a se fazer é orientar o filho, quando solicitado, sobre a maneira de solucionar aquela determinada situação. Ou ainda melhor, questionar o próprio filho de como ele acha que o problema deva ser resolvido. Desta forma, a autoestima é fortalecida e o filho amadurece e se fortalece como pessoa.

No momento em que o sofrimento atinge toda a família, como no caso do falecimento de um ente querido próximo, os pais também podem auxiliar seus filhos a transformarem esta hora de dor em um tempo de crescimento. Este auxílio virá em primeiro lugar no próprio exemplo dos pais de como enfrentam a situação, sem desespero e com tranquilidade, como um fato muito triste, mas que é inevitável, a hora da morte chega para todos.

Além disso, mais uma oportunidade para mencionar a fé no Paraíso, no amor de Deus que nos espera de braços abertos quando formos chamados de volta a sua casa e que também ajudará e consolará toda a família no momento de luto.


É preciso ainda dar espaço para os filhos falarem o que sentem sobre o acontecimento que está causando o sofrimento, sem julgar o sentimento de cada um, mas acolhendo e orientando se for demonstrada alguma revolta ou rancor. Caso a criança seja muito pequena para conseguir expressar com palavras o que sente, pode-se utilizar de desenhos ou brincadeiras utilizando bonecos ou outros brinquedos onde ela possa demonstrar como está sentindo.

CRÉDITO DA FOTO: PHOTOPIN.COM

sábado, 6 de dezembro de 2014

UM NASCIMENTO FORA DO COMUM




Mais uma reflexão do Pe. Nicolás Schweizer, publicada em 15.12.2009, No. 73.

O que celebramos no Natal? Celebramos o nascimento de um menino, mas não de um menino comum, se não de um Menino que é Deus.


Agora, se comparamos este nascimento com outros nascimentos, p.ex. com o de nossos filhos, então notamos algumas coisas estranhas. Este menino nasce em condições surpreendentes, desconcertantes e até chocantes ‑ já que se trata do Filho de Deus.

1. Uma primeira condição estranha. Dá-se a conhecer aos pastores.

Veio a terra. Não preveniu aos grandes. Não avisou aos poderosos. Não fez saber nada aos sacerdotes. Jogou por terra a hierarquia.

Não houve conferência de imprensa para anunciar ao mundo um acontecimento de tal categoria. E, no entanto tinha sumo interesse de que alguém o soubesse. Alguém tinha direito de ser o primeiro em conhecer a notícia. E manda seus mensageiros a uns pastores que acampam perto da cidade guardando seus rebanhos. Os pastores vivem à margem da sociedade e muitas vezes também à margem da religião. São incultos, não conhecem a lei, e por isso estão destinados ao inferno, segundo os fariseus. E precisamente a esses “excomungados” é a quem Cristo envia seus anjos para lhes anunciar sua vinda.

É que Jesus quer deixar as coisas claras desde o começo. Ele vê tudo ao revés. A seus olhos, os grandes são os pequenos. Os últimos são os primeiros. Os deixados de lado pela sociedade, seus clientes privilegiados. A Boa Nova se comunica e chega a pertencer primeiro a aqueles que estão “fora”.

2. Uma segunda circunstância estranha. Não é reconhecido pelos homens.

Pensemos p.ex. nos hospedeiros de Belém. Se houvessem sabido que Deus estava ali, lhe abririam a porta, o acolheriam. Porque eram pessoas religiosas, como nós. Mas acreditaram que se tratava de vagabundos, de refugiados não se sabe de onde, um par de desconhecidos.

E não os quiseram receber. E nós, os receberíamos? Como crer que Deus podia se apresentar a nós dessa forma?


3. Uma terceira circunstância estranha do nascimento. É Deus e nasce na miséria. 



Deus é totalmente distinto de como o havíamos imaginado; Deus é todo o contrário ao poder, a majestade, a autoridade, a riqueza, a força que lhe havíamos atribuído.

Mas Deus é totalmente semelhante aos singelos, aos pobres, aos que se sentem irmãos, aos misericordiosos, aos que amam, aos que tem fome de justiça.

Não é que Cristo não seja um homem como nós, se não que é tão homem, o único verdadeiro homem: verdadeiramente livre, simples, amante, fiel, disponível. A Boa Nova que anuncia o Natal, consiste nisso.

Para assemelhar-nos a Deus, não temos que fazer-nos ricos, fortes, solitários ou majestosos. Nos basta amar um pouco mais, servir um pouco mais, aproximarmos mais aos pobres, lutar um pouco mais por justiça. Podemos nos converter em Cristo seguidamente, em nossa mesma situação, em nosso nível social ou cultural. Sem aguardar visões ou milagres, mas nos tornado os últimos de todos e os servidores de todos.

Deus é pobre: pobre de todas essas coisas que ambicionamos, que buscamos, que pretendemos. E não digamos que Deus se oculta ou está ausente do mundo. Deus está extraordinariamente presente e visível: tão presente e tão visível – ou tão pouco presente e tão pouco visível como o estão, em nossa vida, os pobres.

Se quisermos nos encontrar com o verdadeiro Deus que nesse Natal vem a nós, devemos nos encontrar com os pobres. 

E se então esse amor aos desafortunados nasce em nós, Deus se faz presente realmente em nosso coração. Esse é o Natal que devemos fazer. Esse é o Natal verdadeiro no qual devemos crer. Somos responsáveis de que se faça esse Natal em toda parte.

Perguntas para a reflexão

1.     Como vivo o Natal?

2.  Sou capaz de ver ao Menino Deus entre os pobres de nosso tempo?

crédito da foto: photopin.com


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

SOFRER EM FAMÍLIA

O sofrimento, quando acomete a alguém, normalmente atinge também a todos aqueles que estão ao seu redor, principalmente a sua família. A família toda também pode ser alvo de algum sofrimento e é importante saber lidar com as dificuldades em conjunto.

Este sofrimento em família pode resultar em dois processos distintos: ou ele une a família ou a pode destruir. O grau de maturidade e a fé de cada membro, além da graça divina, é que vai determinar como a família enfrentará a provação.

Quando um sofrimento acomete a família, cada membro pode reagir de um jeito: uns precisam de silêncio, outros necessitam falar sobre o assunto; alguns podem chorar, outros se fechar. O importante é respeitar o tempo de cada um para poder assimilar o acontecimento.

O papel dos pais é fundamental neste processo. Os filhos se espelharão neles para lidar com a situação. Assim, marido e mulher devem se apoiar um no outro para conseguirem a serenidade necessária para enfrentarem qualquer dificuldade.

Na hora da provação, aquele que se sentir mais forte, seja o esposo ou a esposa, deve tomar a frente para conseguir conduzir a família através do sofrimento. Dependendo do tempo em que perdurar a situação, esta liderança pode ser revezada, pois estar à frente do problema suga muita energia e a alternância pode ser necessária para evitar que toda a família sucumba.

O espaço para o diálogo em família deve ser ampliado. É necessário criar oportunidades para que cada um possa falar a respeito de como se sente, como está sendo atingido por aquela situação. É o momento também de chorar junto, de talvez até reclamar junto, colocando em comum todos os sentimentos.

ORAÇÃO

A oração em família também deve ser intensificada. Muitas vezes no momento da dor não é possível rezar da mesma maneira que se fazia antes. A forma de oração não é o mais importante: o que é preciso é colocar-se diante de Deus e expor tudo o que estão passando. Em algumas ocasiões nem se precisa dizer nada: basta ficarem juntos em frente a alguma imagem de Jesus, de Nossa Senhora ou de algum santo de devoção da família e talvez acender uma vela, ou simplesmente olharem para esta imagem por algum tempo.

Chorar também pode ser uma forma de oração. Muitas vezes quando não se consegue expressar em palavras o que se sente e o que se pede, as lágrimas podem substituir a oração verbal.

“As lágrimas podem ser uma eloquente oração, expressando sentimentos, esperanças e medos que não se podem exprimir com palavras. Padre Edward Hays, num seu livro, fala sobre a oração das lágrimas: ‘Ele sentiu-se tocado pela dor da viúva que levava o filho para a sepultura. ‘Não chores’, ele trouxe seu filho de volta para a vida. Seu coração foi tocado profundamente e, sem que a mãe nada pedisse, ele fez um milagre. As lágrimas daquela mulher eram sua oração e essa oração foi ouvida. As lágrimas, sem dúvida nenhuma, são uma oração muito forte, pois têm o poder de mover até mesmo os céus. As lágrimas têm ainda muitas outras funções além de serem a mais poderosa de todas as linguagens. As lágrimas podem expressar o que vai além do poder das palavras.(...) São Paulo bem que poderia estar falando da oração das lágrimas, quando ele diz que quando não sabemos o que dizer, o espírito intercede e ora por nós de uma maneira que não pode ser explicada. ‘Aquele que sonda os corações sabe qual é o desejo do espírito, e que a sua intercessão pelo seu povo santo corresponde à vontade de Deus’ (Rm 8,27)”[1]

Rezar uma novena pedindo a graça da resolução do problema também é um meio muito útil para unir a família e ajudá-la a se entregar nas mãos da Divina Providência, aumentando sua confiança de que Deus não os desamparará. 




[1] “Casamento, uma aliança em quatro estações”, HOLT, Mary Van Balen. Pgs177-178, 3ª edição, Editora Santuário, Aparecida/SP
crédito da foto: photopin.com

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

NASCEU UMA MÃE ESPECIAL

Entrevistei Leticia Velasquez, autora de  "A Special Mother is Born" (Nasceu uma Mãe Especial), um livro repleto de histórias maravilhosas sobre pais que bravamente mantiveram a gravidez, apesar do diagnóstico de mutações genéticas ou outros problemas graves de saúde.

Este livro também quer alertar sobre a taxa extremamente alta de aborto (nos EUA) de crianças com necessidades especiais, que chega a 92% nos casos de Síndrome de Down. Você pode adquirir o livro, também em espanhol, pelo site da amazon.com:



Aqui ela conta um pouco sobre seu livro e seu trabalho:

P. Leticia, por favor nos diga algo sobre você, sua família e seu trabalho atual.
Estou casada com Francisco há 23 anos, nós temos três filhas, Gabriela que está no último ano de enfermagem na Franciscan University, Bella, que está no último ano do ensino médico e quer cursar Educação Especial na Franciscan, e Cristina, que tem 12 anos e Síndrome de Down, a qual estou educando em casa. Ela estudou em escola pública toda sua vida, mas eles não estavam mais conseguindo preencher suas necessidades educacionais, então desde o fim do ano passado eu decidi educá-la em casa e está indo muito bem.

P. O que você acha que os leitores descobrirão no "A Special Mother is Born"?
Se eles tiveram um filho com necessidades especiais, descobrirão que sua história tem muito em comum com as relatadas no livro. Se não tem, terão uma grande surpresa: a criança que muitos acham que destruirá seus sonhos se torna aquela bem no centro deles!

P. Como escrever este livro a ajudou com sua própria filha especial?
Eu descobri que estou em uma classe muito privilegiada, a de pais e mães especiais, escolhidos por Deus para uma vocação única dentro de uma vocação. De ser não apenas pais, mas pais de filhos com necessidades especiais é um meio extraordinário de graças e trará a tona o melhor dos pais se eles tiverem um relacionamento com Deus e o suporte de uma boa paróquia. Uma mãe chama seu filho com autismo de seu "elevador para o Céu."

P. Conte-nos como teve a ideia de escrever este livro não apenas sobre sua experiência pessoal, mas com histórias de tantos outros pais especiais.

Quando comecei com meu blog em 2006, eu escrevi uma versão mais curta da minha história para a revista Faith & Family. A resposta dos leitores foi extraordinária, eles publicaram cartas de pais que gostariam de dividir suas histórias inspiradoras por muitos meses depois. Eu descobri que muitos pais católicos possuem histórias maravilhosas de graça e crescimento para compartilhar. Eu pedi ao padre Benedict Groeshel para escrever a apresentação do livro e ele ficou muito empolgado, me dizendo que venderíamos muitas cópias. Sua saúde não permitiu que ele fizesse a apresentação e ele pediu a sua amiga Irmã Mary Agnes Donovan, Superiora das Irmãs da Vida para escrever a marcante apresentação.

P. Desde que o livro foi publicado há 3 anos, o que você ouviu dos leitores que você acha importante compartilhar com os novos leitores?

Que mais e mais deles enfrentam um diagnóstico pré-natal e que eles precisam do apoio que este livro dá. Não foi por acaso que na mesma semana que meu livro foi lançado, novos testes de sangue foram criados para que a mãe, na 10a semana de gestação, tenha 99% de certeza se o filho tem ou não Síndrome de Down. Eu acho que Deus planejou meu livro para ser publicado na época para ser um recurso para eles. A comunidade da Síndrome de Down está trabalhando duro para alcançar aos conselheiros genéticos e obstetras com panfletos de apoio, livros como o meu e treinamentos. Como a contribuidora Eileen Haupt gosta de dizer: "Um médico pode te dizer todas as complicações que a criança pode ter, mas apenas os pais podem te dizer toda a alegria que esta criança pode dar a vocês!”


P. O que você acha que pode dizer a uma mãe para convencê-la a não abortar uma criança especial?

Deus está com você, de falto Ele a elegeu para este presente que é uma criança com necessidades especiais e Ele lhe dará a graça para você satisfazer as necessidades de seu filho. Seu filho irá encher sua vida com uma alegria inimaginável, que é o que cada pai me disse, católico ou não, que estas crianças tem um dom espiritual da alegria e a habilidade de dar amor como poucos na terra. Sua vida está longe de ter acabado, será diferente do que você imaginou, mas isso é uma coisa boa. Barbara Curtis, uma das minhas autoras contribuintes, era uma amiga querida que já faleceu. Ela tinha três filhos com Síndrom de Down e tinha esta frase como sua assinatura de email "As graças de Deus colocam os melhores sonhos do homem no chão." ~Elizabeth Barrett Browning

P. Existe algo em comum em todas as histórias que você conta no livro?

A maioria dos pais passam por alguns estágios doe luto quando eles descobrem o diagnóstico de seu filho e isso é belamente descrito pela meditação de Emily Perl Kingsley "Bem vindo a Holanda." A história fala que uma gravidez de uma criança com necessidades especiais é como um casal que sai de viagem até a Itália, e esperam muitas coisas maravilhosas como sua família e amigos já experimentaram e estão repletos de expectativas para os sinais da Itália. Mas por um erro, o avião pousa na Holanda. De início, existe um desapontamento. Os pais se sentem traídos. A Holanda não é tão famosa como a Itália. Não tem a Torre Inclinada, não tem os canais de Veneza, não tem Michelangelo. Mas logo os pais descobrem que a Holanda tem campos de tulipas, e moinhos e Rembrandt. Eles abraçam o destino que eles não queriam e uma vez que ele revela sua beleza, eles ficam imaginando como alguem ainda quer ir para a Itália!

P. O que você acha que pode ser feito para melhorar como a sociedade vê as pessoas com necessidades especiais?
Mostrem seus filhos para a sociedade, na mídia, eles vendem a si mesmos! Christina tem muitos amigos em nossa comunidade. Vejam quantos adolescentes com Síndrom e de Down são eleitos como reis e rainhas das formaturas. Quanto mais os conhecem, mais os amam. Veja o vídeo no YouTube  “Dear Future Mom” (Querida futura mamãe) onde jovens com Síndrome de Down falam com uma mãe que está preocupada por seu filho ainda não nascido que tem necessidades especiais. Ele se tornou viral no mundo todo, com quase 7 milhões de visualizações. Eles tem muitos amigos por aí!


P. Tem algum outro comentário que gostaria de partilhar com nossos leitores?

Se Deus o está chamando para ser pai de uma criança especial seja pela adoção ou por nascimento, não tenha medo! Ele o equipará com maisgraça, dia a dia, para transformá-lo em um pai especial do momento que o bebê nascer. Ele tem grandes planos para vocês!

terça-feira, 25 de novembro de 2014

HISTÉRICOS E BEIJA-FLORES

Ótimo texto do Pe. Nicolás Schweizer, publicado em Reflexões No. 63, de 15.07.2009.

O mundo dos afetos é um mundo de entrelaçamento de toda a personalidade. Segundo o Padre Kentenich, o coração é a harmonia entre o apetite sensível (sentimentos, paixões, instintos) e o apetite espiritual (vontade), entre o “animal” e o “anjo” em nós. Marca o equilíbrio pessoal. O objetivo dos afetos é o amor, a entrega ao outro, a entrega generosa ao tu humano ou divino.

Durante muito tempo não se deu a nossa vida afetiva o lugar que lhe corresponde. Acreditou-se que o decisivo era o intelecto e a vontade. É certo que eles, de acordo com a ordem objetiva, são superiores e estão chamados a iluminar e reger em definitivo nosso atuar. Mas é um grave erro, crer que o podem fazer sem a integração da vida afetiva. Frutos desse erro tem sido e são o homem racionalista e o homem voluntarioso, que negam ou sacrificam os sentimentos.

Sem o acordo do coração e dos afetos, a vontade pode fazer muito pouco. E a inteligência tampouco é capaz de conhecer “objetivamente” a realidade. Podemos concluir que a conduta humana em grande parte está definida e determinada pela zona dos afetos, pela zona do coração.

Agora, em que consiste a imaturidade afetiva? O Padre Kentenich costumava dar várias respostas a esta pergunta. Mencionava a histeria e a carência de vínculos firmes, ademais do infantilismo. Aclaremos um pouco duas dessas formas.

1. Histeria. É um grau de imaturidade, muito mais grave, mais delicado. A pessoa histérica gira tanto em torno ao “eu” que está possuída pelo “eu”. Está tão metida nessa busca de si mesmo que perde o bom senso. Não se lhe entende, não é um louco, mas é uma pessoa especial, neurótica.

E há uma coisa muito típica do histérico e é que busca chamar a atenção, quer estar sempre no centro, por qualquer meio. Para ele, muitas vezes inventa “enfermidades”.

Nossas “histerias” geralmente não são tão graves. Talvez exista entre nós gente histérica pela limpeza, ou pelos estudos, ou pela ordem, ou pela pontualidade, ou por não engordar, ou por não envelhecer. Existe um tipo de perfeccionismo enfermiço detrás disso: queremos que as coisas sejam perfeitas ao extremo. E o perfeito, muitas vezes é inimigo do bom.

2. Carência de vínculos firmes. É outro capítulo da imaturidade afetiva. Ao homem de hoje lhe custa amar, vincular-se em forma sã aos demais. E então temos dois extremos:

2.1 O amor instável. Uma pessoa que não tem vínculos profundos. É como uma mariposa em suas relações: incapaz de pousar, incapaz de penetrar, incapaz de fixar-se (beija-flor), incapaz de ser fiel. Vai provando de tudo um pouco, deixa-se levar pelas sensações. Por isso é instável afetivamente.

O que custa ao homem de hoje é a fidelidade, é comprometer-se para sempre, entregar-se por toda a vida. Entretanto, os grandes valores humanos são para toda vida: o amor, a família, o matrimônio, a religião, o sacerdócio, a santidade. Principalmente o amor, seja entre homem e mulher, seja entre a alma e seu Deus, é forte como a morte e até a morte. E se não é assim, não é amor. Há gente que o troca como a um vestido: joga fora o usado e compra um novo. O verdadeiro amor é duradouro e forte.

2.2 O outro extremo é o amor possessivo. É como uma trepadeira que não deixa crescer ao outro. Não é um vínculo para a liberdade, para a plenitude, se não um vínculo egoísta, um amor que afoga. Pode ser uma mãe ou um pai ou um amigo possessivo. Parece que essas pessoas só querem receber, têm uma fome terrível de receber. É como um barril sem fundo. E que horrível é para os filhos de pais possessivos: sofrem durante toda sua vida com esse problema.

Em síntese, a imaturidade afetiva é colocar o “eu” egoísta em primeiro plano, e o “tu” em segundo plano. Que todos adorem a meu “eu” e que eu possa dominar aos demais!

Perguntas para a reflexão

1.      Onde está minha imaturidade afetiva?
2.      Sou uma pessoa possessiva?
3.      Poderia enumerar alguma de minhas “histerias”?

créditos das fotos: photopin.com

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

A FAMÍLIA E O SOFRIMENTO - PARTE 2

Existem dois tipos de sofrimento: aquele que vem diretamente como consequência de uma ação do homem e outro que vem independente do seu agir.

Para a lógica humana é de certa forma mais fácil entender o primeiro tipo, aquele que é oriundo de uma ação, por exemplo, o fato de uma pessoa que fumou por muitos anos vir a sofrer com um câncer de pulmão. Todavia, o sofrimento, por exemplo, de uma criança com leucemia, parece realmente muito “injusto”, pois ela não teria feito nada para “merecer” aquele sofrimento.

Daí vê-se um dos grandes equívocos ao se analisar o sofrimento. Muitas pessoas dizem: “ah, ele não merecia isto” ou “por que aconteceu isto justamente com ele que é tão bom!”. O sofrimento não pode ser considerado um “castigo” de Deus. É simplesmente a consequência do pecado. Ninguém “merece” sofrimento, porém é necessário aprender a lidar com a dor, seja ela física ou moral, e a tentar compreender o que Deus pede para cada um com a permissão do sofrimento.

Sempre é possível extrair algum ensinamento do sofrimento, principalmente no que refere ao amadurecimento e a continua conversão que todas as pessoas necessitam. A pergunta que se deve fazer frente a uma aflição é: “Para que o bom Deus está permitindo isso? Como Ele deseja que eu encare esta provação?”

São Paulo ensina: "Estais sendo provados para a vossa correção: é Deus que vos trata como filhos. Ora, qual é o filho a quem seu pai não corrige? Mas se permanecêsseis sem a correção que é comum a todos, seríeis bastardos e não filhos legítimos"[1]

É necessário encarar todo sofrimento também como prova do amor de Deus para consigo. Como ensinado por São Paulo, muitas vezes o Pai precisa corrigir seus filhos para que andem no caminho correto e esta correção pode nos causar dor, mas precisamos ter a certeza de que “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus.”

O Pe. José Kentenich, Fundador do Movimento Apostólico de Schoenstatt, elucida:
A cruz, o sofrimento e os golpes do destino: todos eles são pequenos profetas do amor divino. De fato: não só ‘também’ a cruz e o sofrimento, mas de modo eminente a cruz e o sofrimento. É sabido, nossa natureza resiste de muitas maneiras a esta compreensão. Na vida de Santo Agostinho, atribui-se a sua mãe as palavras: nesciebat, ideo flebat. (não sabia, por isso chorava). Agostinho havia se dirigido até Ostia contra a sua vontade. Ela pensava que todas as tentativas de conversão de seu filho iriam terminar; não sabia que lá a graça esperava. Assim também em meu caso. Eu não sabia que a cruz e o sofrimento eram uma graça do Pai celestial. (...) A cruz e o sofrimento são, eles mesmos, profetas de Deus. Precisamos apenas escutar e compreender sua linguagem muda. Homens santos nos dizem que Deus alcança de maneira infalível seu objetivo educativo através da cruz e do sofrimento; obviamente – acrescentam, em sábia reflexão, - sempre que o homem não se afaste da cruz e do sofrimento. O Pai poda os sarmentos, a fim de que produzam mais fruto. Isto é o que devia pensar, amar, experimentar, quando me chega uma cruz. Se não ofereço resistência, Ele alcançará com certeza seu objetivo em mim. Por isso, homens santos aconselham, com  inteligência, que deveríamos nos educar para agradecer tanto mais intensamente quanto mais forte seja o martelar da dor sobre a alma e o corpo.Cada cruz e cada sofrimento deve encontrar nosso Deo gratias nos lábios pois descobrimos no sofrimento um mensageiro do amor. Também desta perspectiva puramente psicológica é de muita valia que façamos daquilo que causa dor à nossa natureza o objeto de nossa alegria. Mesmo quando somente obtivermos o apoio do vértice da vontade. Obviamente, uma coisa não podemos esquecer neste contexto: se uma criança come uma fruta que não está madura e fica doente, deverá se manter longe dela no futuro. Assim, pode acontecer que eu seja culpado pela cruz e pelo sofrimento. Neste caso, devo evitar depois a dor na medida em que me seja possível; não devo continuar comendo uma fruta que não está madura – por exemplo, manter um trabalho que não sou capaz-. Sendo tão grande o significado da cruz e do sofrimento, Deus envia este mensageiro do amor a quem mais ama, a homens heroicos – que já o são ou que Ele quer educar para que cheguem a sê-lo-. Por esta razão, encontra-se a dor em maior medida na vida dos santos.”[3]   (grifos nossos)

A melhor maneira de enfrentar o sofrimento é se unindo a Jesus crucificado, tendo a esperança que tudo passa, que no momento da dor, o Pai deseja apenas que aceitemos a nossa cruz e a carreguemos com coragem, sem desânimo. Podemos chorar, mas sem desespero, tendo a certeza de que, como diz o ditado “no final, tudo acaba bem e se não está bem é porque ainda não acabou!”

Jesus é o grande mestre do sofrimento. Ele ensina a sofrer, mantendo-se sempre fiel à vontade do Pai, pois sabe que o Pai só quer o bem do filho. Pode-se pedir que o Pai afaste o sofrimento, como Jesus mesmo fez no Horto das Oliveiras, mas a convicção deve ser: que não se faça a minha vontade, senão a do Pai.

"Caríssimos, não vos perturbeis com o fogo da provação, como se vos acontecesse coisas extraordinárias. Muito pelo contrário, alegrai-vos em ser participantes dos sofrimentos de Cristo”[4]. Com estas palavras, S. Pedro ensina que não devemos ficar surpreendidos pelo sofrimento, pois ele faz parte da vida do cristão, mas devemos nos alegrar por podermos fazer parte dos sofrimentos de Jesus.

Esta alegria em sofrer só poderá ser alcançada com muita oração e entrega, pois na hora da dor, a tendência é se fechar em si mesmo, sentir auto-piedade e procurar de todas as formas afastar o sofrimento. Todavia, esta fuga do sofrimento, ao invés de amenizá-lo, acaba aumentando e prolongando-o.

É preciso ressaltar, contudo, que não devemos procurar o sofrimento. Deus sabe a medida de cada um, a cruz que cada um deve carregar para se santificar, assim não precisamos aumentar esta carga desnecessariamente, pois isto também não é a vontade do Pai.  

Cada pessoa precisa assumir com amor e fidelidade a sua cruz e levá-la até o fim, contando sempre com a graça de Deus. Diz o Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2015: "O caminho da perfeição passa pela cruz. Não existe santidade sem renúncias e sem combate espiritual".

Alguns pensamentos dos santos sobre o sofrimento:

Santo Afonso: “Neste vale de lágrimas não pode ter a paz interior senão quem recebe e abraça com amor os sofrimentos, tendo em vista agradar a Deus”. Segundo ele “essa é a condição a que estamos reduzidos em consequência da corrupção do pecado”.
São João Crisóstomo: “É melhor sofrer do que fazer milagres, já que aquele que faz milagres se torna devedor de Deus, mas no sofrimento Deus se torna devedor do homem”.
Santo Agostinho: “Quando se ama não se sofre, e se sofre, ama-se o sofrimento”.
“O martírio não depende da pena, mas da causa ou fim pelo qual se morre. Podemos ter a glória do martírio, sem derramar o nosso sangue, com a simples aceitação heróica da vontade de Deus”.
São Francisco de Sales: “As cruzes que encontramos pelas ruas são excelentes, e que mais o são ainda – e tanto mais quanto mais importunas – as que se nos deparam em casa”. [1]



[1] Hb 12, 6-8
[2] Carta Apostólica Salvici Doloris de João Paulo II, item 12
[3] “El hombre heróico – Ejercicos Espirituales com la guía de San Ignacio y su método”, KENTENICH, José. 2ª edição, Editorial Patris, Santiago/Chile 2004, pgs. 198-200. Tradução livre da autora.
[4] 1Pd 4,12
[6] http://www.cancaonova.com/portal/canais/formacao/internas.php?e=12028
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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

A FAMÍLIA E O SOFRIMENTO - PARTE 1

“Deus é tão digno do nosso amor, quando nos consola, como quando nos faz sofrer!" (São Francisco de Salles)

O SOFRIMENTO

A dor e o sofrimento fazem parte da existência humana. Desde o nascimento até a morte o ser humano sofre e caso não encontre um sentido para todo este sofrimento, pode viver angustiado e deprimido.

“O homem sofre quando experimenta um mal qualquer. No âmago daquilo que constitui a forma psicológica do sofrimento encontra-se sempre uma experiência do mal, por motivo do qual o homem sofre.”[1]

Assim, pode-se dizer que o sofrimento é uma consequência do mal que entrou na vida do ser humano a partir do pecado original, da desobediência do homem aos planos de amor de Deus Pai.

Deus é Amor, Deus é Bom e Deus é Pai, portanto Deus nunca quer o mal, pois o mal é contrário a Sua natureza; todavia Ele, que é Onipotente e poderia acabar com o mal se assim quisesse, permite a existência do mal, pois o que mais respeita é a liberdade humana, o livre arbítrio onde cada pessoa pode escolher se deseja seguir o caminho do bem ou o caminho do mal. E ainda, por ser todo poderoso, é o único capaz de tirar o bem do mal.[2]

Sem a liberdade o ser humano não passaria de um “robô” e como tal não poderia corresponder ao amor de Deus. Desta forma, Deus espera uma resposta de amor de cada pessoa para seguir seus planos e um dia voltar a Sua casa, porém, caso a pessoa escolha outro caminho, por amor respeita a sua vontade, mas também esta escolha traz consequências para si mesma e para toda a humanidade.

 “Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha vida eterna. De fato, Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele.”[3]

São João, nos versículos citados acima, afirma que foi o amor infinito de Deus por toda a humanidade que o levou a enviar Jesus Cristo ao mundo, para através do seu sofrimento, salvar toda a humanidade. O mal e o sofrimento entraram no mundo em virtude da desobediência do ser humano e então, o mundo foi redimido através da obediência do Filho aos planos do Pai, por meio de sua paixão e morte na Cruz.

“É por meio deste seu sofrimento que ele (Jesus) tem de fazer com que « o homem não pereça, mas tenha a vida eterna ». É precisamente por meio da sua Cruz que ele deve atingir as raízes do mal, que se embrenham na história do homem e nas almas humanas. É precisamente por meio da sua Cruz que ele deve realizar a obra da salvação. Esta obra, no desígnio do Amor eterno, tem um caráter redentor.”[4]

O sofrimento, a dor, analisados apenas sob a luz da razão natural são um total absurdo, pois contradiz o chamado à felicidade que cada um traz dentro de si mesmo. Portanto,o sofrimento só pode ser compreendido se analisado sob a luz da fé, como forma de adesão aos sofrimentos de Cristo, se tornando, desta forma, um meio de salvação.

“Vimos que, examinar a dor a luz da pura razão natural se apresenta como algo absurdo e contraditório, por ser uma certa participação na morte e um processo de desintegração daqueles que estão intimamente orientados para a felicidade. A fé vem a corroborar esta reflexão dizendo-nos que o pecado foi efetivamente a ruptura com a fonte mesma da vida. Não é de estranhar, então, que o pecado tenha uma relação causal com a morte e a dor. Todavia, à luz desta mesma revelação, o crente está em condições de encontrar seu sentido, a partir da ação misericordiosa de Deus que oferece a redenção, mas sem abolir a liberdade do homem. A vocação ao amor, a comunhão e à felicidade permanecem mas, para alcançar sua meta, é preciso fazer um bom uso da liberdade se aderindo a Cristo.Neste contexto, a dor, que foi fruto do pecado e do afastamento de Deus e da felicidade, se transforma, através de Jesus Cristo, em caminho de reencontro. Assim adquire sentido.” [5]



[1] Carta Apostólica Salvici Doloris de João Paulo II, item 7
[2] Conforme Santo Agostinho († 430) e São Tomás de Aquino († 1274): "A existência do mal não se deve à falta de poder ou de bondade em Deus; ao contrário, Ele só permite o mal porque é suficientemente poderoso e bom para tirar do próprio mal o bem" (Enchiridion, c. 11; ver Suma Teológica l qu, 22, art. 2, ad 2).
[3] Jo 3,16-17
[4] Carta Apostólica Salvici Doloris de João Paulo II, item 16

[5] “Perspectiva cristiana del dolor humano”, pg. 56, P. Jaime Fernández M., editora Nueva Patris, Santiago, Chile, 2008 
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